segunda-feira, 7 de julho de 2014

Sanfona, um instrumento de pobre - Uma entrevista com Lula Cigano

Sanfona é instrumento de pobre
Produz o som mais bonito no 
meio da feiura que causa precisão.
Sanfoneiro, todo ele é sofredor.
Faz a alegria de todo mundo, ganha pouco, -
quando ganha - e não lhe dão o valor que merece.

O povo só tem a sanfona como alento,
É um povo de um lugar longe, de onde chega tudo.
De onde chegam as novidades do mundo de fora.

Sanfona é toque do mundo de dentro!

Onde há sanfona há poeira, 
onde há forró, há uma alegria tão espremida entre a 
dor e a tristeza que chega a ser um milagre, ver nos rostos 
sofridos e encardidos, o riso derramado, corrido, 
que quase não saía, mas acabou saindo, arrebentando a rudeza,
caído em torrente atrás da sanfona.

Podem não se dar conta o povo do lugar e o povo de fora,
Mas sanfoneiro é uma coisa por demais importante.
É o essencial, a necessidade básica e o luxo das horas boas.

Sanfoneiro é profeta e ao mesmo tempo boêmio,
Cúmplice da vagabundagem.
Sanfoneiro é chamado para as horas mais insuspeitas,
e completamente esquecido na mesminha hora.

A mesmice é o retrato do lugar,
e o sanfoneiro, das mesmas horas, dos mesmos sons,
das mesmas notas repetidas e mal dadas, da mesma puxada,
é o único que não é o mesmo!

Quem quer que viva isso tudo,
que quase não é nada,
sabe o quanto tem serventia um sanfoneiro.

João Claudio Moreno

Uma entrevista com o sanfoneiro Lula Cigano. Itambé - PE - Fev. de 2013*

 

 


 *Conteúdo exclusivo do Blog do Danicio.