sábado, 26 de abril de 2014

Dominguinhos - Biografia


     José Domingos da Silva, o Dominguinhos, nasceu em Garanhuns, no estado do Pernambuco em fevereiro de 1941, numa família de 16 irmãos. Filho de um tocador e afinador de sanfonas conhecido na região como mestre Chico e de dona Marinha, estabeleceu contato com a música ainda na infância, tocando pandeiro e mexelim (instrumento de borracha inventado por seu pai), se aproximando da sanfona a partir dos sete anos de idade. Juntamente com seus irmãos, se apresentava com o grupo "Os três pinguins" em feiras livres, portas de hotéis no interior do Pernambuco. Durante uma de suas apresentações no hotel Tavares Correia, especificamente no ano de 1948, o pequeno José Domingues conheceu Luiz Gonzaga que estava hospedado no hotel. Entusiasmado com a habilidade do garoto, Gonzagão propôs-se a apadrinha-lo artisticamente, contanto que para isso o jovem fosse até seu endereço no Rio de Janeiro. A mudança se deu em 1954, através do transporte mais comum da época, o caminhão pau de arara, numa dura viagem de dezesseis dias.
Fonte: Correio brasiliense

Residindo em Nilópolis, na baixada fluminense, ganhou uma sanfona do padrinho. Com o nome artístico de Neném do acordeom, iniciou sua carreira se apresentando em bares, churrascarias, cassinos e afins da região. Para isso, foi obrigado a aprender outros estilos que não o forró, entre eles o samba e o bolero. Em 1967, ingressou na Rádio Nacional, o que lhe aumentou os contatos, passando a gravar para cantores como Gal Costa, Maria Betânia, Gilberto Gil e Caetano Veloso. O nome Dominguinhos foi dado a ele por Luiz Gonzaga que não achava o apelido Neném ser um nome artístico bacana. Além de já se ter o Domingos no sobrenome, Gonzaga lembrou de um oficial do tempo do exército que se chamava Dominguinhos, uma importante figura na sua formação, que poderia ser homenageado como nome. Assim, unindo-se o útil ao agradável, Neném da sanfona foi rebatizado. É ainda nessa década que o agora Dominguinhos volta a gravar xotes e baiões, uma demanda que surge a partir da acentuada migração nordestina no Rio de Janeiro.
Além de sua música, outra característica importante de Dominguinhos é a identificação com sua terra natal, o que se percebe através de seu chapéu de couro, utilizado desde suas primeiras apresentações. O chapéu de couro, símbolo do homem do caatinga, do vaqueiro da região do semiárido nordestino, além de um ornamento artístico para facilitar a ligação entre a música e o artista, indicava o orgulho de Dominguinhos em ter nascido na região nordeste e poder propagar sua música regional para todo o mundo.
No ano de 2006, Dominguinhos teve diagnosticado um câncer em seu pulmão, o que o levou a um difícil tratamento que prejudicou bastante sua carreira. A partir daí, sua saúde não se restabeleceu como antes. No ano de 2013, no dia 23 de julho após grande período de internação, faleceu no Hospital Sírio Libanês.
  
Referências

Dominguinhos canta e conta Gonzaga. Produção de Maurício Machado e Wagner Malagine. Pernambuco: M.3 Filmes.2012. Documentário on line disponível no site youtube. < https://www.youtube.com/watch?v=gKVavm_QiZ4> Acesso em 15 abr. 2014.

Biografias on line. Dominguinhos. Disponível em <http://www.e-biografias.net/dominguinhos/> Acesso em 15 abr. 2014.

G1. Dominguinhos morre aos 72 anos de idade em Hospital de São Paulo. Globo.com. 23 jul. 2012. Disponível em < http://g1.globo.com/sao-paulo/musica/noticia/2013/07/dominguinhos-morre-em-hospital-de-sp.html > Acesso em 16 abr. 2014.

GLOBO.COM. Homenagem póstuma ao cantor Dominguinhos. Disponível em: <http://g1.globo.com/pernambuco/musica/infografico-dominguinhos/platb/> Acesso em 15 abr. 2014.

terça-feira, 22 de abril de 2014

CRÍTICA AO PENSAMENTO ÚNICO: OUTRAS VERSÕES DO GÊNESIS BÍBLICO


Na tentativa de romper com o pensamento único em suas diversas vertentes, apresento aqui duas análises do conteúdo de Gênesis, apoiados na visão de dois grandes pensadores, um alemão e outro (mais contemporâneo) brasileiro. Falo de Nietzsche e Millôr Fernandes.
É importante lembrar que a concordância de ideias e a fuga do debate embora aproxime pessoas e as tornem "amigas" representa uma erva daninha ao conhecimento, pois paralisia sua evolução natural que está na contradição


LIVRO: O Anticristo: Aforismo 48

" Será que alguém entendeu com clareza a famosa história que se encontra no início da Bíblia? – do terror mortal de Deus perante a ciência? ... Ninguém, de fato, a compreendeu. Esse livro sacerdotal par excellence começa, como convém, com a grande dificuldade do interior do sacerdote: ele se defronta apenas com um único grande perigo; 'Deus' se defronta apenas com um grande perigo.
O velho Deus, totalmente 'espirito' totalmente sumo sacerdote, totalmente perfeito, está passeando em seu jardim: está entediado e tenta matar o tempo. Até mesmo os deuses lutam em vão contra o tédio. O que ele fez? Cria o homem – e o homem é divertido... Mas percebe que o homem fica entediado. A misericórdia de Deus para a única necessidade presente em todos os paraísos desconhece limites: ele imediatamente cria outros animais. O primeiro engano de Deus: para o homem, esses outros animais não eram motivo de diversão – ele buscou dominá-los; ele próprio não desejava ser um 'animal'. – Deus então criou a mulher. Ao fazê-lo, cessou o tédio do homem – e também muitas outras coisas! A mulher foi o segundo erro de Deus. 'A mulher é no fundo uma serpente, Eva' – todo sacerdote sabe isso; 'pela mulher vêm todos os males do mundo' – todo sacerdote também sabe isso. 'Logo, ela é também culpada pela ciência' ... Foi somente por intermédio da mulher que o homem aprendeu a saborear a árvore do conhecimento. – O que aconteceu? O velho Deus foi acometido de um terror mortal. O próprio homem se tornara seu maior erro; criara um rival de si mesmo; a ciência iguala o homem a Deus – e tudo acaba para os sacerdotes e deuses quando o homem se torna científico! – Moral: a ciência é proibida por si; só ela é proibida. A ciência é o primeiro dos pecados, o germe de todos os pecados, o pecado original. Eis a única moral. – 'Tú não conhecerás' – o resto é decorrência disso. – O terror mortal de Deus, entretanto, não o impediu de ser astuto. Como se proteger contra a ciência? Durante muito tempo esse foi o problema capital para Deus. Resposta: afaste o homem do paraíso! A felicidade e o ócio estimulam o pensamento, e todos os pensamentos são maus pensamentos! O homem não deve pensar. E, portanto, o sacerdote inventa o sofrimento, a morte, os perigos da gravidez, todo o tipo de miséria, a velhice, a decrepitude e sobretudo, a doença – que não passam de artifícios para lutar contra a ciência! Os problemas não permitem que o homem pense... Todavia – que coisa terrível! – o edifício do conhecimento começa a se elevar, invade o céu, obscurece os deuses – o que fazer então? – O velho Deus inventa a guerra; separa os povos, faz que os homens se destruam, uns aos outros. A guerra é – entre outras coisas – um grande estorvo à ciência! – Incrível! O conhecimento, a emancipação do domínio sacerdotal, prosperam apesar da guerra. – Então o velho Deus chega a sua decisão final: 'O homem tornou-se científico – não existe outra solução: é preciso afoga-lo'!
O paraíso, o pecado e a queda do homem. Fonte: http://asassustadorashistoriasdabiblia.blogspot.com.br/2007_12_01_archive.html

Aforismo 49: No início da Bíblia, está toda a psicologia do sacerdote. – O sacerdote conhece apenas um grande perigo: a ciência – o conhecimento sadio de causa e efeito. Mas a ciência floresce apenas em circunstâncias afortunadas – o homem precisa ter tempo, precisa ter um espírito transbordante para poder 'conhecer'... 'Logo, é preciso tornar o homem infeliz' – esta tem sido a lógica do sacerdote através dos tempos. (...)

Esse texto do filósofo Nietzsche foi escrito em 1888, num contexto muito diferente do vivido pelo dramaturgo Millôr Fernandes no Brasil. Em sua obra: "O homem do princípio ao fim", de 1982 (livro), por meio do teatro, Millôr explora o início de forma cômica e original:
Fernanda: Um dia o Todo-poderoso levantou-se naquela imensidão desolada em que vivia, convocou os anjos, os arcanjos e os querubins e disse: "Meus amigos, vamos ter uma semana cheia! Vamos criar a Terra, o Sol, a floresta, os animais, os minerais, a Lua, as estrelas, o Homem e a Mulher. E devemos fazer tudo isso muito depressa, pois temos que descansar no domingo. E no sábado, depois do meio dia.
Sergio: O que deus fazia antes da criação do mundo, ninguém sabe. Se fez tudo isso em seis dias apenas, imaginem que imensa ociosidade, a anterior!
Fernanda: nascendo já grande prontinho, Adão teve várias vantagens; não precisou fazer o serviço militar, não passou por aquela transição terrível entre a primeira e a segunda dentição: e nunca teve 17 anos. Além do que, não precisava comprar presente no Dias das Mães.
Depois de devidamente soprado como Fogo Eterno, Adão saiu pelo paraíso experimentando as coisas. Tudo o que ele fazia, ou dizia, era completamente original. Nunca perdeu tempo se torturando: - "Onde é que eu ouvi essa"? - "De onde que eu conheço esse cara"?  Deus, entre outros privilégios, deu a Adão o de denominar tudo. Foi ele quem chamou árvore de árvore, folha de folha e vaca de vaca. E tinha tanto talento para isso que todos os nomes que botou, pegaram.
Criou-se a mulher...

Sergio: Furioso pra show, furioso para as arquibancadas, pois sendo Onisciente, Presciente e Onipresente, Deus sabia muito bem o que Adão e Eva iam fazer.
Depois do pecado...

Fernanda: O Todo-Poderoso apontou-lhes imediatamente o olho da rua, depois de desejar aos dois coisas que não se desejam nem ao pior inimigo; como ter filhos sem os processos da técnica moderna e ganhar o pão com o suor do próprio rosto. Todos os outros animais pensaram que aquilo se tratasse apenas de uma brincadeira. Mas não. Botou mesmo o casal pra fora, tendo até, como lá conta a Bíblia, colocado, na entrada do Paraíso, um anjo com uma bruta espada de fogo na mão, com ordem de não deixar os dois entrar. Esse anjo foi o primeiro Leão de Chácara da história universal.