quarta-feira, 12 de março de 2014

Música e autoestima no Brasil: A colonização como causa e a vulnerabilidades cultural como efeito


 "Do ponto de vista cultural e ideológico tal realidade de dominação econômica traz para o povo dependente uma consequência cruel: é que, ao envolver a ideia de modernidade e de universalidade (quando se sabe que o que se chama de universal é o regional de alguém imposto para todo o mundo), o som importado leva os consumidores nacionais ao desprezo pela música do seu próprio país, que passa então a ser julgada ultrapassada e pobre, por refletir naturalmente a realidade de seu subdesenvolvimento".  
José Ramos Tinhorão


"A arte deve, antes de tudo e em primeiro lugar, embelezar a vida". 
Nietzsche
O histórico de colonização, dentre os vários resultados que promoveu, acaba por refletir de forma direta em nossa “autoestima cultural”, sugerindo um ambiente que Samuel Pinheiro Guimarães chama de vulnerabilidade cultural. Para este autor:
A vulnerabilidade cultural decorre do atraso cultural e da valorização excessiva da cultura dos centros europeus – e hoje americanos – em combinação com a desvalorização, o desprezo sistemático e irônico das manifestações culturais brasileiras pela mídia (e por muitos intelectuais de qualquer tendência política). A isto se soma a ausência histórica de política cultural firme que as promova, preserve e defenda [...]. (p. 24).

Para confirmar o argumento de Guimarães (2006), citamos um exemplo que elucida o papel da mídia nacional como negadora da própria cultura. No site da revista Veja, na seção blogs e colunas[1], o economista/ jornalista Rodrigo Constantino, que se autointitula "um liberal sem medo da polêmica", nos apresenta a seguinte coluna: "Se eles tem Chico Buarque,nós temos Bruce Dickson!" No geral, o argumento principal do autor é elogiar o empreendedorismo do vocalista da banda inglesa Iron Maiden, que dentre outras qualidades, "pilota o próprio avião. Tem uma cerveja própria. Viaja de São Paulo à Europa na mesma semana", isso através da comparação jocosa com o cantor brasileiro Chico Buarque de Holanda, que segundo Constantino é o "ícone da esquerda caviar, que adora Cuba lá de Paris". Ao final de seu texto, o autor faz uso de um trocadilho com o  nome de um dos álbuns da banda britânica para mandar uma "mensagem para Chico Buarque e a esquerda caviar: Run to the Hills! Porque a direita vem aí…"
Infelizmente, este é apenas um de muitos exemplos, onde pessoas influentes, através de seus diversos meios de comunicação, despejam ideias decadentes sobre seus leitores ou telespectadores. A ideia do autor em comparar cantores segundo sua produção de riqueza é algo extremamente inútil, uma vez que o papel do artista é produzir arte. O que está explícito no texto de Constantino é a aversão à produção cultural nacional a partir da valorização excessiva do que é estrangeiro, mesmo que para isso seja necessário o uso de critérios não artísticos. Embora não seja  principal preocupação deste trabalho, nos vemos no dever de lembrar que tal fato não se limita apenas à música ou a arte, mas transbordar para outros temas como ciência e política, principalmente.   



Livro: Desafios Brasileiros na era dos gigantes - Samuel Pinheiro Guimarães

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