terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Feliz Ano Novo!

Bom, um ano passa rápido, e essa é a tendência. É o tempo do capital! A produção, circulação e consumo de mercadorias exige a velocidade das trocas, principalmente nas grandes cidades. 
Mesmo estando inseridos dentro dessa lógica capitalista, desejo que no próximo ano que se iniciará, você caro leitor, desfrute de muitos momentos eternos, aqueles em que gostaríamos de congelar o tempo... Seja numa boa conversa, em uma viagem, ou em coisas simples, como observar a paisagem. É isso ( e também o amor, é claro!) que faz tudo valer a pena! Desejo a todos vocês paz, reflexão, autoconsciência, novos amigos e também algum dinheiro. Feliz Ano Novo! 

Ass: Danício.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Uma verdade sobre a verdade

" A verdade liberta, mas antes te desgraça". 

  James A. Garfield

A verdade como processo. Fonte: Google

 

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Ateísmo

"A fé salva, logo mente". Nietzsche

Abrindo o coração ou Do processo de descrença 

 

A princípio, a ideia do Blog surgiu diante de uma experiência particular, o processo de descrença. Desde os primeiros anos da faculdade de Geografia, tive minhas crenças cristãs profundamente confrontadas. O processo de perda dessa fé não se deu sem muita confusão, angústia e também algum choro. O Blog deveria servir para um relato dessa experiência. 
Por vários motivos, o conteúdo acabou tomando outro rumo, o qual penso hoje ser mais virtuoso. Porém nunca esquecemos a importância do assunto religião, afinal, o conjunto de crenças que carregamos se traduz na maneira como agimos no dia a dia. 
O texto (trecho) abaixo do filósofo francês André Comte Sponville*, nos traz algumas considerações sobre esse tema. Boa leitura!

O Ateísmo

O ateísmo é um objeto filosófico singular. É uma crença, mas negativa. Um pensamento, mas que se alimenta do vazio do seu objeto.
É o que a etimologia indica suficientemente: esse minúsculo a privativo do imenso theos (deus)... Ser ateu é ser sem deus, seja porque o ateu se contenta em não crer em nenhum, seja porque afirma a inexistência de todos.
Num mundo monoteísta, como o nosso, podemos distinguir dois ateísmos diferentes: não crer em Deus (ateísmo negativo) ou crer que Deus não existe (ateísmo positivo). Ausência de uma crença ou crença numa ausência.
E o agnóstico? É aquele que se recusa a escolher. Nisso, está bem próximo do que eu chamava de ateísmo de ateísmo negativo, porém mais aberto, é sua característica, à possibilidade de Deus (deixa o problema em suspenso).

Três motivos para ser ateu?

Uma razão forte para ser ateu é, antes de mais nada, a fraqueza dos argumentos opostos. Fraqueza das "provas", claro, mas também fraqueza das experiências. Se Deus existisse, deveríamos poder vê-lo mais, senti-lo mais! Os crentes costumam responder que é para preservar nossa liberdade: se Deus se mostrasse em toda a sua glória, já não seriamos livres para crer nele ou não... Porém, há menos liberdade na ignorância do que no saber. Deveríamos, para respeitar a liberdade das crianças, deixar de instruí-las? A ignorância nunca é livre; o conhecimento nunca é servo.


A principal força de Deus, se é que ele existe, é por definição inexplicável. Que a religião é uma crença possível, não desconvenho. Que é respeitável, nem é preciso dizer. Mas eu me interrogo sobre seu conteúdo de pensamento. Que mais é uma religião, senão uma doutrina que explica alguma coisa que não compreendemos (a existência do universo,da vida, do pensamento...) por meio de alguma coisa que compreendemos menos ainda (Deus)?
Ser ateu não é rejeitar o mistério; é rejeitar livrar-se do mistério ou reduzi-lo sem maiores esforços mediante um ato de fé ou de submissão. Não é explicar tudo; é recusar-se a explicar tudo pelo inexplicável (...) O universo é mais misterioso do que a Bíblia ou o Corão. Como esses livros, que ele contém, poderiam explicá-lo?


Se não creio em Deus é também, e talvez principalmente, porque preferiria que existisse. É a aposta de Pascal, se quiserem, invertida. Ora, Deus é tanto menos verossímil, parece-me, quanto mais é desejável: ele corresponde tão bem a nossos desejos mais forte que é o caso de indagar se não o inventamos por isso.
Que desejamos acima de tudo? Não morrer, 
responder

*Livro: Apresentação da Filosofia. Martins Fontes.

domingo, 16 de novembro de 2014

Sobre a velocidade do mundo contemporâneo e seus resultados na vida cotidiana

Numa conversa informal...

- Danicio, gosto das coisas que você posta em seu Blog, mas os textos são muito longos!
Quase nunca leio inteiro...

Eu...

sábado, 25 de outubro de 2014

Sobre a mídia e seu papel de formadora de opinião pública

"Se você não cuidar, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas e amar as pessoas que estão oprimindo". Malcon X

     A eleição de 2014, para presidência da república principalmente, polarizou a população brasileira em dois lados bem definidos. Talvez algo inédito na história do Brasil. 
Corriqueiramente, o debate em defesa de certos pontos de vista lançaram mão do termo "manipulação midiática", ou "golpe da mídia" e etc. Mas o que é isso de fato? Vou tentar explicar...
    Se imagine dono de uma grande revista ou jornal. Você tem poder nas mãos, poder para promover (marketing) ou denegrir a imagem de pessoas, empresas ou instituições. Agora uma pergunta (e aqui uma resposta sincera é fundamental): Você falaria mal de sua família? Das pessoas que você gosta? Exporia por exemplo um escândalo envolvendo uma igreja ou clube que frequenta? Se a resposta for sim. Meus parabéns! Você é uma pessoa muito honesta, e provavelmente com poucos amigos. Se a resposta for não, você acabou de entender a lógica pela qual a mídia molda a opinião pública.


E a neutralidade?


Se você ainda pensa que os assuntos que viram notícia são escolhidos aleatoriamente, te convido à visitar o site Manchetômetro. Aqui é possível visualizar em números a quantidade de informação sobre cada candidato em período eleitoral nas ultimas eleições. Boas reflexões! 

sábado, 6 de setembro de 2014

O que é a política?

"É preciso pensar em política, se não pensarmos o bastante, seremos cruelmente punidos". Alain

Em tempos de eleição, é importante nos assegurarmos do básico. Nesse sentido, gostaríamos de compartilhar um texto do filósofo francês André Comte Sponville sobre o tema, pois a reflexão sobre a política é um dever de todo cidadão.

A Política 

O homem é um animal sociável: só pode viver e se desenvolver entre seus semelhantes.

Mas também é um animal egoísta. Sua "insociável sociabilidade" faz com que ele não possa prescindir dos outros nem renunciar, por eles, à satisfação dos seus próprios desejos.

É por isso que necessitamos da política. Para que os conflitos de interesses se resolvam sem recurso à violência. Para escapar da guerra, do medo, da barbárie.

É por isso que precisamos de um Estado. Não porque os homens são bons ou justos, mas porque não são. 

O que é política? É a gestão não guerreira dos conflitos, das alianças e das relações de força - não entre indivíduos, mas na escala da sociedade. É portanto a arte de viver juntos, com pessoas que não escolhemos, pelas quais não temos nenhum afeto, e que são, sob muitos aspectos, nossos rivais tanto quanto ou mais que aliadas. Isso supõe um poder comum e uma luta pelo poder. Supõe a discordância, o conflito, a contradição. A política nos une, nos opondo: ela nos opõe sobre a melhor maneira de nos reunir. Isso não tem fim.

Não nos enganemos. Contar com o humanitarismo para fazer as vezes de política externa, com a caridade para fazer as vezes de política social e até mesmo antirracismo para fazer as vezes de política de imigração, é evidentemente conversa fiada. Não claro que o humanitarismo, a caridade ou o antirracismo não sejam moralmente necessários; mas porque não poderiam bastar politicamente (se bastassem, não precisaríamos mais de política), nem resolver sozinhos um problema social qualquer.

A política não é o contrário do egoísmo, mas sua expressão coletiva e conflituosa: trata-se de sermos egoístas juntos, já que essa é a nossa sina, e da maneira mais eficaz possível. Como? Organizando convergência de interesses e é isso que se chama solidariedade.

Não basta esperar a justiça, a paz, a liberdade, a prosperidade. É preciso agir para defendê-las, para aprimorá-las, o que só se pode fazer eficazmente de forma coletiva e que, por isso, passa necessariamente pela política. 

"Fazer bem ao homem" (moral) não basta. É necessário também fazer uma sociedade que seja humana, e por isso é necessário refazê-la sempre, pelo menos em parte. O mundo não para de mudar; uma sociedade que não mudasse estaria fadada à ruína. Portanto é preciso agir, lutar, resistir, inventar, salvaguardar, transformar... É para isso que serve a política. Há tarefas mais interessantes? Pode ser. Mas não há, na escala da sociedade, tarefas mais urgentes. A história não espera; não fique bobamente esperando-a!

A história não é um destino, nem somente o que nos faz: ela é o que fazemos, juntos, que nos faz, e isso é a própria política.

- André C. Sponville

 

 

SPONVILLE. André Comte. A política. In: Apresentação da filosofia. Martins Fontes. São Paulo, 2002.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

O conceito de amor a partir de Schopenhauer

"O amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente" Luis de Camões

Não é a primeira vez que privilegiamos como tema o pensamento do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860). Na primeira vez, procuramos divulgar um texto do filósofo em relação à educação.
Hoje, sugerimos uma análise desse grande pensador referente ao amor. Embora mais conhecido por seu pessimismo generalizado (é dele a frase: "Decepção contínua e desilusão, bem como a natureza geral da vida, apresentam-se como previsto e calculado para despertar a convicção de que nada vale nossos esforços, nossos esforços e nossas lutas, que todas as coisas boas estão vazias e fugazes, que o mundo em todos os lados está falido, e que a vida é um negócio que não cobre os custos..."), nossa pretensão é apresentar aos nossos leitores a incrível visão do filósofo a respeito desse sentimento.

 

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Sanfona, um instrumento de pobre - Uma entrevista com Lula Cigano

Sanfona é instrumento de pobre
Produz o som mais bonito no 
meio da feiura que causa precisão.
Sanfoneiro, todo ele é sofredor.
Faz a alegria de todo mundo, ganha pouco, -
quando ganha - e não lhe dão o valor que merece.

O povo só tem a sanfona como alento,
É um povo de um lugar longe, de onde chega tudo.
De onde chegam as novidades do mundo de fora.

Sanfona é toque do mundo de dentro!

Onde há sanfona há poeira, 
onde há forró, há uma alegria tão espremida entre a 
dor e a tristeza que chega a ser um milagre, ver nos rostos 
sofridos e encardidos, o riso derramado, corrido, 
que quase não saía, mas acabou saindo, arrebentando a rudeza,
caído em torrente atrás da sanfona.

Podem não se dar conta o povo do lugar e o povo de fora,
Mas sanfoneiro é uma coisa por demais importante.
É o essencial, a necessidade básica e o luxo das horas boas.

Sanfoneiro é profeta e ao mesmo tempo boêmio,
Cúmplice da vagabundagem.
Sanfoneiro é chamado para as horas mais insuspeitas,
e completamente esquecido na mesminha hora.

A mesmice é o retrato do lugar,
e o sanfoneiro, das mesmas horas, dos mesmos sons,
das mesmas notas repetidas e mal dadas, da mesma puxada,
é o único que não é o mesmo!

Quem quer que viva isso tudo,
que quase não é nada,
sabe o quanto tem serventia um sanfoneiro.

João Claudio Moreno

Uma entrevista com o sanfoneiro Lula Cigano. Itambé - PE - Fev. de 2013*

 

 


 *Conteúdo exclusivo do Blog do Danicio.





sexta-feira, 20 de junho de 2014

Epicuro e a receita da felicidade ou A atualidade dos filósofos gregos II

"Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz. Desse modo, a filosofia é útil tanto ao jovem quanto ao velho: para quem está envelhecendo sentir-se rejuvenescer através da grata recordação das coisas que já se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que estão por vir; é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcançá-la".
Epicuro - Carta Meneceu

O post de hoje é, no mínimo, especial. Isso porque esta semana tive o prazer de assistir um documentário sobre Epicuro onde o autor, Alain de Botton, um filósofo e historiador suíço, sugere a receita da felicidade segundo o Filósofo do Jardim. Para minha surpresa, o tema central do filme foi a relação do epicurismo com o consumo. Exatamente o mesmo tema de minha primeira postagem, "a atualidade dos filósofos gregos - do consumismo, de março de 2012!


Epicuro e a Felicidade


domingo, 15 de junho de 2014

Sobre o complexo de vira latas: a percepção do brasileiro em relação ao seu país

“Mas a ambição (ignorância) do homem é tão grande que, para satisfazer uma vontade presente, não pensa no mal que daí a algum tempo pode resultar dela.”
―Nicolau Maquiavel

Já expomos  aqui, em outras postagens, algum material que versasse sobre a falta de ânimo do brasileiro em defender o  que é seu (em diversos aspectos)... Recentemente, estive lendo na internet  uma história que um amigo me contou sobre a banda de rock americana  Kiss ter copiado a ideia da maquiagem do grupo brasileiro Secos e Molhados. Acabei descobrindo que o mito existe e parece ter sido resolvido pela historiografia, o que não passou de um mal entendido... 
Em qualquer polêmica de internet, o mais curioso são os comentários dos leitores! Lembro que no calor da  argumentação, alguém chegou a dizer que Os Mutantes, Secos e molhados e Legião Urbana são bandas horríveis, que ocupam a lista de piores bandas nacionais de todos os tempos... Pera lá! Não sei muito sobre o Legião Urbana, mas posso afirmar que as outras duas são conceituadíssimas em todo o mundo, principalmente Os Mutantes, que foram homenageados pelo Barbican Hall em 2006, uma casa de shows londrina considerada o principal centro cultural da Europa!
Esta introdução serve para nos lembrar que ainda sofremos da mente colonizada, onde tudo o que é de fora parece ser melhor, em comparação com que é nacional. A esse sentimento, o dramaturgo Nelson Rodrigues deu o nome de Complexo de Vira Latas. O vídeo abaixo procura esclarecer, aos interessados, este conceito:

 

terça-feira, 10 de junho de 2014

Baião grunge: quando a música brasileira é mais reconhecida por estrangeiros do que por nós mesmos

"O ritmo do baião, por sinal, sendo muito marcado e sem a complexidade da batida do samba, prestava-se admiravelmente para a exportação, pois os bateristas estrangeiros se tornavam capazes de aprender ao menos sua cadência básica, o que até então só acontecera com os pomposos sambas cívicos para grande orquestra, lançados por Ary Barroso a partir da composição 'Aquarela do Brasil', de 1939".  
José Ramos Tinhorão


É comum, entre grande parte da população brasileira, uma valorização extrema de culturas estrangeiras, seja na música, no cinema, ou literatura... Esse tema já foi tratado aqui em postagens mais antigas
Embora seja um fato triste, por outro lado, podemos perceber atitudes que pretendem nos convencer do contrário, nos lembrar da riqueza de nossa cultura e de sua singularidade. É sobre isso que vamos tratar...

Baião Grunge?  

 

O baterista da banda Sound Garden, Matt Cameron, fez questão de homenagear a música brasileira executando o baião, um ritmo típico da região nordeste do Brasil, em uma das faixas do CD King Animal, de 2012.  Confira:
Música: "A thousand days before" - 04

Enquanto isso na mente colonizada... 

 

"- Agora sim. Se um americano admira, deve ser porque é realmente uma coisa boa"... (ironia)


Mattew Cameron (1962) - É um músico conhecido por tocar bateria nas bandas de grunge: Soundgarden de 1986 a 1997, voltando em 2010 até atualmente e no Pearl Jam desde 1998

terça-feira, 20 de maio de 2014

Uma história do Baião - Ascensão e queda de um ritmo que tinha tudo para ser a cara do Brasil!*


"O ritmo cabe em qualquer lugar" Dominguinhos

*Trata-se de um texto em estilo acadêmico.
O baião é um ritmo do forró, um dos ritmos típicos da região nordeste. Consiste num compasso binário, onde a subdivisão rítmica se dá em oito semicolcheias por compasso, executada pelo triângulo. Seu instrumental característico é composto de zambumba, triângulo e harmônica (Frungillo, 2003). É transformado em gênero de música popular urbana a partir de meados da década de 1940, graças ao trabalho de estilização do acordeonista pernambucano Luiz Gonzaga e do advogado cearense Humberto Teixeira. (p. 251).  Sua origem está num determinado tipo de batida executado na viola, denominado baião.
A ideia de combinação do instrumental composto pelos instrumentos citados (sanfona, zabumba, triângulo), é também de Luiz Gonzaga, que mesmo entre controvérsias, reivindica sua criação numa entrevista dada em 1972:
“Quando eu toquei um baião para ele, saiu a ideia de um novo gênero. Mas o baião já existia como coisa do folclore. Eu tirei do bojo da viola do cantador, quando faz o tempero para entrar na cantoria e dá aquela batida, aquela cadência no bojo da viola. A palavra também já existia. Uns dizem que vem de baiano, outros que vem de baía grande. Daí o baiano que saiu cantando pelo sertão deixou lá a batida e os cantadores, do nordeste ficaram com a cadência. O que não existia era uma música que caracterizasse o baião como ritmo. Era coisa que se falava: ‘Dá um baião aí...’. Tinha só tempero, que era o prelúdio da cantoria. É aquilo que o cantador faz, quando começa a pontilhar a viola, esperando inspiração.” (Tinhorão 2013 p. 254)

Outros autores nos revelam que a criação e divulgação deste ritmo está ligada a três nomes da música popular, são estes: Humberto Teixeira, Luiz Gonzaga e José Dantas.
José de Souza Dantas Filho nasceu em fevereiro de 1921 na cidade de Carnaíba, localizada no sertão do Pajeú, no estado do Pernambuco. Compositor e poeta filho do fazendeiro José de Souza Dantas e Josefina Alves de Siqueira Dantas, teve a possibilidade de estudar medicina no Recife, onde atuava de forma amadora em rádios e revistas estudantis. Na maioridade, trabalhava na Rádio do Comércio, postura que contrariava os desejos de seu pai, que o queria apenas praticando a medicina. O encontro com Luiz Gonzaga, se deu num Hotel em Recife, onde Dantas pôde mostrar algumas de suas composições. Dantas possuía grande conhecimento das tradições do sertão nordestino, que utilizava com maestria em suas canções. Gonzaga prometeu gravar suas canções, porém Dantas o advertiu que não tornasse público a autoria de suas letras, pois isso lhe traria problemas com sua família.
Na década de 1950, agora formado em medicina, Zé Dantas, como gostava de ser chamado, muda-se para o Rio de Janeiro para se especializar. A mudança para o Rio estreitou a parceria entre ele e Gonzaga, resultando em diversas composições gravadas, rendendo sucesso e dinheiro à dupla, possibilitando à Zé Dantas autonomia financeira. Dentre os sucessos da dupla, podemos citar o "Xote das meninas", uma canção conhecida onde Zé Dantas faz uma comparação entre a floração do mandacaru, uma planta típica da caatinga e a menina adolescente:

Mandacaru
Quando fulora na seca
É o sinal que a chuva chega
No sertão
Toda menina que enjôa
Da boneca
É sinal que o amor
Já chegou no coração...    

A parceria durou até o ano de 1962, ano da morte de Zé Dantas, que faleceu com apenas 41 anos de idade. Seu legado, que inclui músicas de outros estilos mais românticos, gravados por Ivon Cury, é coroado de sucessos. Especificamente na música nordestina, temos alguns exemplos como o já citado "xote das meninas", "A volta da Asa Branca", "Riacho do navio" entre muitos outros. Sua morte prematura, de certa forma, contribuiu para que seu nome como compositor caísse no ostracismo. Hoje, ao tratar da música nordestina em geral, poucas fontes citam a importância da obra de Zé Dantas.
Dentre estas canções, cabe aqui destacar o conteúdo da tradição rural do nordeste, assim como o geográfico presente nas composições. Um bom exemplo desse último aspecto está impresso na letra "Riacho do navio", de Zé Dantas, onde podemos explorar na geomorfologia fluvial, o conceito de bacia hidrográfica:

Riacho do Navio
Corre pro Pajeú
O rio Pajeú vai despejar
No São Francisco
O rio São Francisco
Vai bater no "mei" do mar
O rio São Francisco
Vai bater no "mei" do mar
           
            Ao se estudar o Baião, nos deparamos com uma figura central que é Luiz Gonzaga, isso por conta do magnetismo e carisma desse cantor; além, é claro, de sua imensa habilidade artística. 
Luiz Gonzaga do Nascimento, nasceu em dezembro de 1912 na Fazenda Caiçara, em Exu, na Serra do Araripe, no estado do Pernambuco. É o segundo de nove irmãos nascidos do casal Januário José dos Santos (mestre Januário, conhecido na região) e Ana Batista de Jesus. O interesse pela música se deu desde a infância. Por influência do pai, aprendeu a tocar sanfona. Seu primeiro instrumento, comprado com o próprio trabalho, foi aos treze anos de idade, uma sanfona Koch de oito baixos, que adquiriu a partir de um empréstimo concedido por seu patrão, o coronel Manoel Ayres de Alencar, que o empregou como cuidador oficial do cavalo particular do coronel. Gonzaga sabia que era possível sobreviver apenas tocando, pois observava que seu pai recebia alguma remuneração nas festas em que se apresentava. Ao possuir seu próprio instrumento, decidiu abandonar o emprego, para se dedicar totalmente à "carreira" nascente.
            Algumas problemas pessoais e familiares envolvendo aventuras amorosas o motivou a mudar-se para o estado do Ceará, no ano de 1929. Em 1930, o ano da Revolução, alistou-se no exército brasileiro, servindo em diversas cidades. Porém, a maior parte de sua carreira militar se deu no estado de Minas Gerais, onde em 1936, tem aulas de sanfona de 120 baixos, com Domingos Ambrósio, uma importante figura na sua formação. Passados quase dez anos de serviço militar, Gonzaga foi dispensado no ano de 1939, e nesse meio tempo, foi ao Rio de Janeiro, com a intenção de embarcar o quanto antes para sua terra natal (tinha a passagem de navio até Recife já comprada). Durante a espera, visitou algumas casas noturnas que lhe pagaram algum dinheiro por suas apresentações com o acordeom. Nessa época, os ritmos de sucesso eram a valsa, o tango, o foxtrot, o choro. Estes acontecimentos foram o bastante para que Gonzaga esquecesse de voltar para o Recife.
Ocorre porém que o projeto baião, ainda não havia nascido. Sua gênese se dará a partir de 1945, após o encontro com o compositor Humberto Teixeira.
Humberto Cavalcanti Teixeira, nasceu em Iguatu, no estado do Ceará, em janeiro de 1915. Seu primeiro contato com a música se deu principalmente pela influência de seu tio, o maestro Lafaiete Teixeira que por sabe tocar vários instrumentos, o ajudou a aperfeiçoar a técnica em flauta e bandolim. Logo aos 13 anos de idade Humberto Teixeira já compunha suas primeiras canções. Aos quinze anos de idade, mudou-se para o Rio de Janeiro, o que contribuiu com sua formação cultural, dando a esta um aspecto mais urbano. Embora apaixona pela música, escolheu como profissão o direito, graduando-se pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no ano de 1943.
O interesse pela música regional do nordeste do Brasil, aproximou Teixeira do cantor e músico Luiz Gonzaga, que nessa altura, já residia no Rio de Janeiro. Gonzaga, era conhecido de um parente de Teixeira, o maestro Lauro Maia, que os apresentou no ano de 1945. Enquanto este, procurava um expositor da música regional nordestina, aquele, precisava de um letrista que compusesse suas canções. Nas palavras do Cantor Otto (2008), "Humberto Teixeira era a pólvora, Gonzaga era o canhão. O encontro dos dois gerou a explosão". A explosão do baião... A partir desse encontro, surge uma parceria muito produtiva que será responsável pela divulgação do ritmo baião, que até este momento era conhecido apenas no nordeste do Brasil. Temos como resultado dessa parceria as músicas "Asa Branca", "No meu pé de serra", "Juazeiro", porém uma canção que pode ser considerada um marco dessa parceria é Baião, de 1946:
Eu vou mostrar pra vocês
Como se dança o baião
E quem quiser aprender
É favor prestar atenção
Morena chega pra cá
Bem junto ao meu coração
Agora é só me seguir
Pois eu vou dançar o baião
Eu já dancei balancê
Xamego, samba e xerém
Mas o baião tem um quê
Que as outras danças não têm
Oi quem quiser é só dizer
Pois eu com satisfação
Vou dançar cantando o baião
Eu já cantei no Pará
Toquei sanfona em Belém
Cantei lá no Ceará
E sei o que me convém
Por isso eu quero afirmar
Com toda convicção
Que sou doido pelo baião

A letra "Baião" dos autores citados acima, traz elementos de sua origem assim como a novidade da proposta evidenciando seu objetivo, que era o de servir como ritmo de dança. Há uma ligação entre o Baião e outro ritmo criado pelo maestro cearense Lauro Maia, o balanceio, o que também pode ser percebido na composição supracitada. (Tinhorão 2013. p. 254).
A parceria entre Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga durou até o ano de 1950, ano em que Teixeira se candidatou a deputado federal pelo estado do Ceará. Sua candidatura foi apoiada por Gonzaga, que através da música fazia comícios pelo interior do estado.
            Eleito com folga, o então deputado federal abandonou as composições para se dedicar à vida política. Em 1958, conseguiu a aprovação, pelo Congresso Nacional, da Lei Humberto Teixeira, que consistiu, dentre outras funções, na formação de caravanas artísticas de divulgação da cultura brasileira no exterior por meio do patrocínio estatal.
           
O baião, antes de 1950, já era um sucesso no sudeste. Sua irradiação pelo sul do país está ligado, em partes, a grande população nordestina residente no sudeste, resultado migração populacional, que obrigou uma parte considerável da população nordestina a migrar por conta de fatores climáticos e econômicos (Frungillo, 2003).
A partir da aprovação desta lei, a ideia de internacionalização do baião como um ritmo tipicamente brasileiro ganha corpo. Este fato é documentado por José Ramos Tinhorão, em sua obra "Pequena história da música popular: segundo seus gêneros". Tinhorão (2013) procura evidenciar que havia motivos técnicos suficientes para crer na possibilidade de internacionalização:
O ritmo do baião, por sinal, sendo muito marcado e sem a complexidade da batida do samba, prestava-se admiravelmente para a exportação, pois os bateristas estrangeiros se tornavam capazes de aprender ao menos sua cadência básica, o que até então só acontecera com os pomposos sambas cívicos para grande orquestra, lançados por Ary Barroso a partir da composição “Aquarela do Brasil”, de 1939. (p.256)

O Baião nordestino buscou conquistar sua fatia no mercado mundial, e de fato o conseguiu! O sucesso internacional do baião pode ser visto no cinema italiano, por exemplo, no filme Arroz Amargo, dirigido por Giuseppe De Santis, de 1949. 
O processo de exportação do baião como gênero representante da música popular brasileira no exterior se apoiava na figura do cantor e acordeonista Luiz Gonzaga. A Era do baião, para nos apropriarmos da expressão de Jairo Cavalcanti (Cavalcanti 2008), durou de 1946 a 1957, "alcançando o auge no triênio de 1949-1951" (p. 281). Porém, a parceria entre Humberto Teixeira e Gonzaga, já havia sido quebrada antes disso, como nos lembra Cavalcanti:
Infelizmente, a conjunção dos talentos musical do primeiro e poético do segundo desfez-se em 1952, quando eles, já não se entendendo muito bem, passaram a pertencer a diferentes arrecadadoras de direitos autorais. Mesmo assim, rendeu 27 composições, das mais expressivas, como os baiões 'Juazeiro' (1949); 'Baião de dois', 'Paraíba', 'Qui nem jiló' e 'Respeita Januário' (1950); as toadas 'Asa branca' (1947), 'Légua tirana' (1949), 'Assum preto' e 'Estrada de Canindé' (1950). (p. 280).  

Para solucionar o problema da falta de um letrista, Luiz Gonzaga se aproximou de Zé Dantas, que o supriu com importantes composições de grande sucesso (p. 281). Mesmo com a primeira parceria desfeita, Luiz Gonzaga nunca deixou de prestar homenagens a Humberto Teixeira. Enquanto Gonzaga era conhecido como o "Rei do baião", fez questão de apelidar seu grande parceiro de "Doutor do baião". Isso foi importante principalmente para evidenciar o papel central do compositor na vida dos intérpretes.  

O resultado da exportação do baião em termos financeiros não foram animadores. Embora a mão de obra e produto fossem brasileiros, os lucros do baião foram absorvidos por outras nações, que gravaram o ritmo com outras instrumentações sem pagar os devidos royalties a seus inventores.  Dentre os obstáculos enfrentados para a internacionalização do ritmo, podemos citar a falta de força da indústria do disco no Brasil. A matéria prima era brasileira, mas os lucros foram gozados pelos países desenvolvidos. (Tinhorão. p. 259).
Além disso, o ritmo estilizado pelo sanfoneiro Luiz Gonzaga não teria condições de competir com a novidade do rock, que então estourava no mercado internacional firmado no magnetismo pessoal do cantor Elvis Presley e na força da indústria norte-americana do disco. (p. 260). No brasil, já na década de 1960 outro fenômeno musical chegava com força, a bossa nova. Além disso, outros autores afirmam que o baião sofreu de um mal causado por ele mesmo: a saturação do mercado. A partir de 1958, com o advento da bossa nova, esse estilo que combinava o samba com elementos do jazz, a carreira de Gonzaga cai no ostracismo de uma vez por todas. (Cavalcanti 2008. p. 284).
O ostracismo e o esquecimento foi inevitável. É só na década de 1970 que Gonzaga reconhece algum sucesso. Isso por meio do boato de que os Beatles gravariam seu arranjo de “Asa Branca”. Caetano e Gil, se voltaram as músicas desse compositor, o que influenciou a juventude intelectualizada da época. (p. 262).
Humberto Teixeira, que pode ser considerado o pioneiro promotor da cultura brasileira no exterior, morreu no ano de 1979, aos 64 anos de idade, no Rio de Janeiro.
O ostracismo de Luiz Gonzaga acabou a partir da década de 1970, quando o este cantor passa a realizar shows novamente. Mesmo diante de altos e baixos na vida artística, Gonzaga atingiu seu objetivo, que era ver "a música do Nordeste definitivamente incorporada à história da música brasileira". (Cavalcanti 2008. p. 282).
Já com idade avançada, Gonzaga já havia anunciado seu sucessor artístico, Dominguinhos. Na canção "Hora do adeus", dos compositores Onildo de Almeida e Luiz Queiroga, temos o registro da despedida de Gonzaga, que termina sua carreira com grande objetivos alcançados e uma vida financeira bem diferente da que conheceu quando criança:

O meu cabelo já começa prateando
Mas a sanfona ainda não desafinou
A minha voz vocês reparem eu cantando
Que é a mesma voz de quando meu reinado começou

Eu agradeço ao povo brasileiro
Norte Centro Sul inteiro
Onde reinou o baião
Se eu merecí minha coroa de rei
Esta sempre eu honrei
Foi a minha obrigação

Modéstia à parte é que eu não desafino
Desde o tempo de menino
Em Exu no meu sertão
Cantava solto que nem cigarra vadia
E é por isso que hoje em dia
Ainda sou o rei do baião

Minha sanfona minha voz o meu baião
Este meu chapéu de couro e também o meu gibão
Vou juntar tudo dar de presente ao museu
É a hora do Adeus
De Luiz rei do baião  
Luiz Gonzaga morreu no ano de 1989, aos 76 anos de idade. Deixando grande contribuição para música popular brasileira.

Referências

TINHORÃO. José Ramos. O baião. In: Pequena história da música popular segundo seus gêneros. 7ª ed. São Paulo. Editora 34, 2013. p. 251-263.


SEVERIANO. Jairo. O estouro do baião. In: Uma história da música popular brasileira: das origens à modernidade. 2ª ed. São Paulo. Editora 34, 2009. p. 279-288.
FRUNGILLO. Mário David. Mapa de ritmos do Brasil. 2003. 203 f. Dissertação (mestrado em música) – Universidade Estadual Paulista, São Paulo, 2003.
 



Disponível em: < http://www.letras.com.br/#!biografia/humberto-teixeira > Acessado em 17 abr. 2014.


Disponível em: < http://www.recife.pe.gov.br/mlg/gui/Humberto.php > Acessado em 17 abr. 2014.

Disponível em: http://www.recife.pe.gov.br/mlg/gui/Zedantas.php




  
http://www.vagalume.com.br/luiz-gonzaga/hora-do-adeus.html